“Na grande encruzilhada do mundo, atravessa uma massa de corpos para reverenciar o feminino”, a frase abre a sinopse de “Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo”. O espetáculo é resultado do processo formativo do Curso Técnico em Teatro (CTT) do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), equipamento público da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult Ceará), gerido pelo Instituto Dragão do Mar (IDM). As apresentações da turma circulam no dia 26 no Teatro Marcus Miranda CCBJ, nos dias 27 e 28 no Teatro Dragão do Mar e no dia 31 no Teatro B. de Paiva do Hub Cultural Porto Dragão, sempre às 19 horas. A entrada é gratuita, com classificação indicativa para maiores de 16 anos e conta com acessibilidade em Libras.
O espetáculo apresenta diferentes histórias sobre os femininos, que se entrecruzam a partir de narrativas míticas e contemporâneas. Composta por 19 estudantes, “Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo” marca a conclusão da primeira turma do Curso Técnico em Teatro, formada na periferia de Fortaleza. A formação é realizada pelo Centro Cultural Bom Jardim, a partir da Escola de Cultura e Artes (ECA-CCBJ).
A peça se debruça sobre as questões das mulheridades que atravessam o mundo, reverenciando a pluralidade dos seus manifestos. A construção da dramaturgia que envolve a trama do espetáculo foi feita coletivamente, e conta com a colaboração de Onisajé, a partir de citações do texto dramático “Oduduwa – o poder feminino da criação”. A montagem conecta texto, elenco, caracterização, produção, sonoplastia e ambientação, com orientação artístico-pedagógica de Liliana Matos.
“A temática do espetáculo dialoga com o histórico mítico e contemporâneo sobre a força e a tentativa de silenciamento da potência do feminino, que atravessa todas as existências, nas sociedades. Ela cria, organiza e sustenta a sociedade na base psíquica, afetiva, econômica”, explica a professora e orientadora artístico-pedagógica. Os módulos de Teatro Negrorreferenciado e de Montagem foram essenciais para a construção do espetáculo, referenciados em narrativas ancestrais.
Mulheridades, Odu Eleiye e a Potência Ancestral Feminina
O conceito de mulheridade foi construído coletivamente entre diversas identidades femininas. Pensado para além do termo universal de “mulher”, as mulheridades conversam com corpos dissidentes, como mulheres negras, travestis, transgêneros e outros atravessamentos. Para “Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo”, as mulheridades surgem para contar memórias e histórias que falam sobre a humanidade.
O espetáculo também propõe uma remodelação dos pilares rígidos que formam a estrutura da sociedade, ao revelar a origem e destino da humanidade pelo matriarcado. Odu remonta à cosmologia Yorùbá, sendo a primeira mulher citada na narrativa e representante da sabedoria ancestral feminina de Ìyàmi, mãe ancestral e força feminina dos cosmos. A narrativa do espetáculo reivindica as mulheridades na construção do mundo, das sociedades e de um futuro possível.
Para a expressão cênica do espetáculo, a turma aborda as epistemologias negras a partir dos conceitos de tempo espiralar e de encruzilhada. Fazendo coexistir, a partir da ritualidade cênica, o passado, o presente e o futuro como tecnologia da narrativa ancestral.
“Odu Eleiye significa mulher-pássaro. O nome remete à força feminina que não se pode controlar e as Ìyàmis são a prova disso. Essas mulheres ancestrais estão aqui desde o começo, bem antes de nós, e trabalham no equilíbrio da Terra”, afirma Luana Barbosa, estudante do Curso Técnico em Teatro. Os ritos de iniciação, as memórias das ancestrais, o barro e a cabaça são elementos presentes na obra que conectam o poder da criação ao feminino.
A maior parte da turma é composta por mulheres e pessoas não binárias. Dessa forma, o espetáculo valoriza as diferentes feminilidades presentes na sociedade. “Odu Eleiye se relaciona com o momento atual da sociedade ao trazer reflexões sobre as questões do machismo, da desigualdade e da diversidade de gênero em uma constante luta por uma transformação social efetiva”, explica Letícia Agrella, estudante que compõe o elenco da peça.
A Primeira Turma Formada pelo Curso Técnico de Teatro do CCBJ
Os Cursos Técnicos do CCBJ são um marco na formação artística e profissional na periferia de Fortaleza. O primeiro curso profissionalizante surgiu em 2019, com o Curso Técnico em Dança (CTD). Posteriormente, em 2024, mais três cursos técnicos chegam ao equipamento: Instrumento Musical, Programação de Jogos Digitais e Teatro. As formações técnicas são uma conquista que atende à demanda da comunidade por cursos mais longos e aprofundados.
“A formação técnica tem como objetivo principal o investimento no artista, fortalecendo o conhecimento, valorização profissional local, além de fomentar outros tipos de pesquisa, compreendendo a complexidade do contexto histórico-social do Grande Bom Jardim e de outras periferias”, explica Lis Oliveira, assistente de formação do Programa de Teatro. Para quem busca iniciar no percurso artístico, os programas de formação do CCBJ ofertam também os Cursos Básicos, voltados ao primeiro contato com a arte.
O Curso Técnico de Teatro tem carga horária de 1.200 horas, com certificação de nível médio pelo Ministério da Educação (MEC), o CCBJ se destaca como referência no Ceará ao oferecer um dos únicos Cursos Técnicos em Teatro do Estado. Além disso, também há a possibilidade de pesquisa na área teatral com os Laboratórios de Pesquisa do equipamento. “O Bom Jardim merece um curso desse. Os jovens que ocupam o CCBJ merecem um curso assim. Ele abrange muitas técnicas, a gente teve contato com muitos professores de diversas áreas, diversas visões, diversas formas de estudo, e no qual abraçou muito a gente”, conta Luana.
Para a primeira turma do CTT, a apresentação do espetáculo é o ponto de culminância e celebração da trajetória formativa. Com a temática acerca das mulheridades, o grupo apresenta as urgências da participação feminina no passado, presente e futuro da sociedade. A presença de “Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo” em outros espaços culturais públicos da cidade fortalece e valoriza a construção do espetáculo e dos artistas participantes em uma articulação em rede.
“Agradeço profundamente o convite para fazer parte da história formativa dessa turma, a primeira da cidade de Fortaleza. Contribuir para a criação cênica em um dos equipamentos mais produtivos da cidade, que floresce em práticas culturais e sociais com a comunidade, foi de muita honra como profissional”, reconhece Liliana Matos.

Serviço
O quê: Espetáculo “Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo”.
Classificação indicativa: 16 anos.
Quando: Dia 26 no Teatro Marcus Miranda do Centro Cultural Bom Jardim, dias 27 e 28 no Teatro Dragão do Mar e dia 31 no Teatro B. de Paiva do Hub Cultural Porto Dragão. Sempre às 19h.
Sinopse: Na grande encruzilhada do mundo, atravessa uma massa de corpos para reverenciar o feminino. Num rito espiralar, as mulheridades surgem para contar memórias e histórias ancestrais, que sobrevoam a humanidade desde a sua criação. Ao remodelar os pilares rígidos que formam a estrutura da sociedade, a trama da vida é rasgada para que o universo nasça novamente.
Realização: Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ)
Gratuito e aberto ao público.
Ficha Técnica:
Orientação Artístico-pedagógica:
Liliana Matos
Dramaturgia:
Liliana Matos
Camilla Paim
Jean Brito
Lívia Marques
Mikayla Ferré
Kevyn Costa
Elenco:
Adisson Mattos
Ana Caroline Pires
Baruque Teixeira
Caio Lincoln
Camilla Paim
Enally Pantoja
Inaiê
Jean Brito
Kopas
Letícia Agrella
Lívia Marques
Luana Barbosa
Mikayla Ferré
Nicoly Motta
Nil Lima
Rydlla Furtado
Caracterização:
Baruque Teixeira
Enally Pantoja
Letícia Agrella
Sonoplastia:
Ana Caroline Pires
Jean Brito
Nicoly Motta
Rydlla Furtado
Ambientação:
Adisson Mattos
Inaiê
Kopas
Luana Barbosa
Produção:
Adisson Mattos
Ana Caroline Pires
Caio Lincoln
Camilla Paim
Déborah Santos
Inaiê
Nil Lima
Rydlla Furtado
Professoras:
Liliana Matos
Déborah Santos
Supervisora Pedagógica:
Ana Carla Campos
Assistente de Formação:
Lis Pereira
Monitoria e Operação de luz
Ayê Lopes
A estreia de "Odu Eleiye: Pássaro que corta o mundo" acontece no dia 26 de março, no Centro Cultural Bom Jardim e circula em outros equipamentos culturais da cidade Reprodução: Mar Pereira / Centro Cultural Bom Jardim
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