Mostra das Artes 2023 reafirma potência do CCBJ e demarca seus 17 anos de história na periferia

Em quatro dias de duração, a Mostra das Artes encerrou o ano de 2023 do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ) cumprindo seu papel de intensificação da fruição artística e cultural do Grande Bom Jardim com mais de 50 atrações e um público de mais de 5.000 pessoas. No dia 16 de dezembro, o equipamento completou 17 anos de existência e finalizou a programação democrática, cultural e aberta a todos os públicos.

Levi Nunes, gerente executivo do CCBJ, define a Mostra das Artes como uma grande exposição e festa que resulta dos processos formativos e de fruição cultural e ações de direitos humanos desenvolvidas pelo equipamento durante todo o ano no Grande Bom Jardim e em toda a cidade de Fortaleza.

“Pra gente, celebrar mais um ano com mais de 10.000 horas de aulas executadas, com mais de 300 ações de fruição cultural, com tantas ações de direitos humanos representa a seriedade na construção de uma política pública cultural que nasce na periferia para a periferia”, afirma Levi, pontuando a expansão da produção do equipamento para toda a cidade.

Conforme Shirley Barroso Lima, articuladora comunitária do CCBJ, o Núcleo de Articulação Técnica Especializada (NArTE) e a Ação Cultural do equipamento realizaram sessões de mobilização na comunidade. Os profissionais interagiram com os comerciantes e clientes que estavam na feira, que ocorre às segundas-feiras no bairro Bom Jardim, para divulgar a programação da Mostra das Artes, além de rotas para escolas e instituições do território. “Foi uma forma de criação de vínculo com a comunidade nesse momento de divulgação”.

Além de celebrar a finalização de percursos formativos, a Mostra das Artes contou com contrapartida de pessoas beneficiadas por editais e chamadas públicas do CCBJ e com shows que marcaram os quatro dias de programação gratuita, ocorrida nos dias 13, 14, 15 e 16 de dezembro. Batuque do Dipas, banda Amor Secreto, Freedom Sounds feat Shallon Raiz & Ras Terra e Gabivic foram os respectivos destaques de cada noite do evento.

Lançamento da Webrádio CCBJ, “Favela” e Batuque do Dipas movimentam o primeiro dia de Mostra das Artes

Na quarta-feira, 13, o show de samba/pagode de Batuque do Dipas foi precedido de espetáculos como o “Favela – O Boom do Vixxi!”, criado por meio do Programa de Dança da Escola de Cultura e Artes (ECA/CCBJ), retratando a vida e a estética periférica, e do lançamento da Web Rádio CCBJ. O primeiro dia de evento também trouxe apresentações musicais e sessão de cinema, via Programa de Música e Programa de Audiovisual da ECA/CCBJ, além de desfile de economia solidária e lançamento de uma coleção de camisas estampadas por jovens do Centro Socioeducativo Canindezinho, por meio do Programa de Cultura Digital do CCBJ.

Jefferson Juan, técnico de estúdio do Centro Cultural Bom Jardim, conta que a Web Rádio é uma ideia sonhada há muito tempo pelos setores do equipamento, a fim de haver um meio de comunicação rápido com o público do CCBJ. “A gente tem programas musicais, com os vários estilos de música, e também programas institucionais.”

As diversas linguagens artísticas, tais como dança, audiovisual, cultura digital e o teatro foram contempladas por espetáculos desenvolvidos por meio dos Programas da ECA/CCBJ e das parcerias deste setor com espaços como a Associação Nossa Casa Mãe África, Centro Socioeducativo do Canindezinho, escola Dona Júlia Alves Pessoa e outras instituições.

“Na Mostra das Artes 2023, o Programa de Teatro veio com sete espetáculos, de sete turmas diferentes, que vêm dos 15 aos 18 anos de idade”, diz Heitor Bantim, assistente pedagógico do Programa de Teatro da ECA/CCBJ. “Todas as peças foram produzidas pelas próprias turmas, junto com professores, conduzidas por eles mesmos e, pra muitos, foi a primeira experiência cênica”, continua. 

O Programa de Cultura Digital do CCBJ realizou cinco ações para o evento, entre elas as exposições de computação física e de jogos digitais. Dispostas em um stand vermelho no Espaço Paulo Freire, as exposições continham o trabalho realizado pelas turmas de crianças e adolescentes do Programa de Cultura Digital. Robôs animados e 14 jogos digitais disponíveis divertiram o público atraído para a tenda.

Banda Amor Secreto agita o segunda dia da Mostra das Artes

No dia 14, por meio da Ação Cultural do CCBJ, o Ensaio Geral Fazeno Rock foi a primeira atração do dia. O grupo fez apresentação musical no Teatro Marcus Miranda e Mateus Fazeno Rock se utilizou do momento para falar da importância da participação do seu grupo na Convocatória Pública para Manutenção das Atividades Artísticas e Culturais de Grupos e Coletivos, edital do CCBJ.

O edital possibilitou que o grupo alugasse estúdios para gravações e ensaios, além de auxiliar os componentes a construírem um espetáculo com mais elementos. O “Ensaio Geral Fazeno Rock” foi a contrapartida do grupo, apresentada com números coreografados e camisas personalizadas.

O Programa de Audiovisual da Escola de Cultura e Artes promoveu uma exposição de brinquedos ópticos e a exibição do filme “Gatu” e do videoclipe “Corre”, enquanto o Programa de Teatro levou ao evento os espetáculos “O Diabinho da Garrafa”, “O Infinito da Vida”, “Miragem” e “Era uma vez no séc XXI” ao Teatro Marcus Miranda.

A produtora audiovisual Bom Jardim Produções exibiu os filmes “Nosso Território tem História – Rio Siqueira” e “Histórias Assombrosas que minha Mãe Contava” como contrapartida à participação no edital de Manutenção de Grupos, realizado pelo CCBJ por meio de sua Ação Cultural.

O Programa de Dança da ECA/CCBJ também levou números de dança da Mostra Pulsar ao evento. Por fim, a banda Amor Secreto mostrou a força do forró de favela e finalizou o segundo dia da Mostra das Artes 2023 reunindo uma multidão de pessoas no equipamento, com direito a efeitos de pirotecnia e à tradução em LIBRAS, recurso de acessibilidade presente nas apresentações de todo o evento.

Show de reggae marca o terceiro dia de Mostra das Artes

A equipe de Comunicação do equipamento também preparou uma exposição para o evento, chamada “Pode Entrar”, com fotografias que representam o CCBJ enquanto espaço de acolhimento. Com registros realizados por fotógrafos do território e também por fotógrafos que já passaram pelo CCBJ, a exposição foi disposta no terceiro dia do evento.

Também no dia 15, ocorreu Live Paint com o coletivo Ruela e masterclass com a Cia Anagrama, mais contrapartidas da Convocatória do CCBJ. Entre as atrações da sexta-feira estavam a Dança Fitness, Poesia em LIBRAS, realizada pelo Programa de Acessibilidade da ECA/CCBJ, e espetáculos teatrais como “O Bailão” e “ANCMA: INFÂNCIA DE RAPINA”.

Antes do show de reggae de Freedom Sounds feat Shallon Raiz & Ras Terra, ocorreu ainda a apresentação de outros números de dança da Mostra Pulsar e a apresentação “DANÇAR ENTRE INFÂNCIAS E AUTISMOS”, realizadas por meio do Programa de Dança do CCBJ, além de mutirão de graffitti e outras atrações.

CCBJ celebra seus 17 anos durante o quarto dia de evento

O sábado, dia 16, “Tempo de Brincar e Desconstrução”, Mostra Pulsar, “Antes que o Céu Caia Sobre Nossas cabeças”, exposição Aquilombart, teatro de mamulengos e outras atrações ocuparam o quadro de programação do último dia do evento, marcado pelo aniversário do CCBJ. Antes do show de brega funk de Gabivic, que também atraiu grande público, houve um momento de celebração dos 17 anos do equipamento.

Todos os dias de evento foram acompanhados da feira de economia criativa, impulsionando a circulação de economia do território com comidas, roupas e acessórios para venda. O Espaço Brincarte, pensado pela equipe do Núcleo de Articulação Técnica Especializada (NArTE/CCBJ) para as crianças presentes no equipamento, também foi uma atração fixa da Mostra das Artes 2023. 

Todas as atrações que movimentaram o evento e os moradores do território condensam ações construídas e mobilizadas pelo Centro Cultural Bom Jardim durante todo o ano junto à população do território. Além de promover cultura e lazer, o evento anual impulsiona artistas e coletivos diversos e funciona a partir da cooperação de muitos colaboradores, promovendo oportunidades de visibilidade e de circulação de renda a diferentes setores do mercado.

A última edição da Mostra das Artes reafirma a importância do CCBJ para a comunidade e evidencia o poder da cultura na periferia, bem como alimenta o circuito cultural, artístico e econômico da comunidade na qual o equipamento está inserido. 

Desbravadoras da relação entre poesia e realidade, Denise Fonseca, Lídia Marques e Sabrina Nascimento cutucam o limiar entre fabulação e fato por meio de um projeto de pesquisa que, como elas definem, “se debruça sobre a poética do uso e feitura das tranças”. No Laboratório de Pesquisa em Audiovisual da Escola de Cultura e Artes do Centro Cultural Bom Jardim (ECA/CCBJ), as Nagôs Transatlânticas exploram os caminhos das tranças nagôs.

Formado por uma trancista, uma geógrafa e uma fotógrafa/videomaker, o projeto “Nagôs Transatlânticas” ancora-se em “O Atlântico Negro”, de Paul Giroy, e une os três universos das pesquisadoras em uma produção que se lança sobre questões relacionadas à diáspora africana, à beleza negra e às histórias que podem ser contadas a partir da trança nagô, sejam elas reais ou fabulosas.

A lacuna que encontraram nas representações imagéticas de trancistas em Fortaleza foi um grande motivador para a investigação sobre a qual se debruçaram no Laboratório de Pesquisa da ECA/CCBJ em 2023. Quando Sabrina Nascimento, 20, se deparou com a oportunidade lançada pelo equipamento ao qual se refere como sua segunda casa, já pensava em voltar o olhar para questões relacionadas ao cabelo, aplicando o tema a um formato com o qual já está familiarizada: o audiovisual.

Enquanto trancista, Denise Fonseca, 26, encara seu papel no projeto como um caminho entre seu grupo e a temática sobre a qual elas decidiram investigar. E as tranças, como ela afirma, fazem o caminho entre a vida das três pesquisadoras. A escolha das tranças nagôs, em específico, foi feita pela sua feitura livre, partindo de diferentes origens, e pela utilização histórica do penteado como rotas de fuga.

Com Lídia Marques, 25, no grupo, além de dar visibilidade às trancistas da cidade de Fortaleza, as Nagôs Transatlânticas também se propõem a falar sobre o caminhos que os negros percorreram entre África e Oceano Atlântico, unindo o uso e a feitura das tranças com a geografia – campo de conhecimento familiar para a geógrafa já acostumada a desenvolver pesquisa científica. Não é por acaso que o nome do projeto quase se firma como “Trançando Caminhos”.

“Me tornei pesquisadora no Nagôs [Transatlânticas]”, afirma Denise, antes de recordar que iniciou sua profissão pesquisando, tendo como professora uma historiadora que a mostrou que a trança está para além de si mesma. A noção deste conceito norteou todo o processo de pesquisa do projeto, que rendeu um roteiro audiovisual que não nega a interdisciplinaridade, significados e simbolismos das tranças nagô e as questões que as cercam.

Assim como ela, Sabrina também já havia tido experiências informais com a pesquisa. No caso da fotógrafa e videomaker, as pesquisas se voltavam ao audiovisual, buscando investigar não somente filmes, mas também produções teóricas sobre estes. No projeto de seu grupo para o Laboratório de Pesquisa do CCBJ, não foi diferente.

Lídia, Denise e Sabrina dividiram a pesquisa bibliográfica entre textos científicos sobre trancismos e suas origens e materiais audiovisuais. Às segundas-feiras, geralmente, elas faziam rodas de conversa para debater o que haviam consumido para fazer o projeto tomar forma. Mas não ficaram apenas no campo teórico.

Elas entrevistaram onze trancistas, do Pirambu e do Grande Bom Jardim, territórios da periferia de Fortaleza, com uma abordagem de quem busca as referências, a história de como começaram a fazer tranças e suas histórias de vida. Elas queriam conhecê-las e apresentá-las ao mundo.

O desejo de realizar uma produção audiovisual também permanece aceso no coração das três pesquisadoras, que, por enquanto, têm um roteiro que mostra o dia a dia das trancistas e traz entrevistas, narração em off, performance e fotografias em um produto que deliberadamente borra a linha entre o documental e o imaginativo.

A proposta das Nagôs Transatlânticas é, além de exibir a realidade, dispor em imagens “o que a gente quer e o que a gente imagina”, como afirma Sabrina, dando ênfase ao caráter especulativo ao qual elas se dedicaram para a produção da pesquisa. Além das consultas bibliográficas, imaginação e criatividade também fazem parte do desenvolvimento deste trabalho.

“Esse projeto é lindo”, elas ouviram de diversas pessoas. A dose de subjetividade no processo de pesquisa e no resultado do produto é parte da razão do retorno positivo que escutaram e também denota um tipo de produção de pesquisa que leva em conta a pessoalidade das pesquisadoras, mas a importância do projeto não está somente em sua poesia.

Subjetividade e ciência, arte e pesquisa

“Contribuir para a existência das trancistas e cientificar isso”. Conforme Lídia Marques, é este o propósito central do projeto encabeçado por ela, Sabrina Nascimento e Denise Fonseca. “Como é importante pessoas negras estudarem ancestralidade”, pontua Lídia, que também conta sobre a necessidade de se discutir os direitos trabalhistas das trancistas que, na maioria dos casos, atuam como profissionais autônomas.

Evidenciar a importância de uma profissão ligada à estética negra e sua relação com a ancestralidade apontam para a necessidade de dar continuidade ao trabalho das trancistas e de continuar conhecendo sua história, como afirma Denise. Nesse sentido, a expectativa das pesquisadoras sempre foi grande e o processo, conforme Sabrina, as preparou para isso.

Embora não tenham finalizado o processo no Laboratório de Pesquisa da Escola de Cultura e Artes com o produto que gostariam – um filme, elas seguem com o desejo de realizá-lo para fazer valer o esforço e dedicação que dispuseram durante os cinco meses de pesquisa no equipamento, dando vida ao roteiro que construíram.

Mesmo com os desafios de limitação de tempo e pressão interna para desenvolver o que estavam se propondo a fazer naquele processo formativo, o projeto “se tornou maior que nós”, diz Denise. Para a trancista, “parar para ler e estudar foi difícil”, estabelecer uma rotina e equilibrar os afazeres do grupo foram dificuldades que elas precisaram enfrentar para realizar o projeto, assim como deparar-se com o apagamento das trancistas.

Lídia, que já havia desenvolvido pesquisas científicas vinculadas à universidade, visualiza no processo de pesquisa vivido na Escola de Cultura e Artes do CCBJ uma possibilidade de aprofundar as subjetividades. “Me senti mais segura”, confessa, dando importância ao acompanhamento oferecido pelo equipamento.

Sabrina não nega que suas expectativas sempre foram grandes e, ainda que os desafios tenham surgido e que tenha o desejo de realizar o filme que ela e suas companheiras de pesquisa roteirizaram, em nenhum momento as expectativas foram quebradas. Ela considera o projeto concretizado na união das três Nagôs Transatlânticas e no processo de investigação no qual mergulharam juntas.

Sabrina, Lídia e Denise aplicaram uma perspectiva regional a um tema que reconhecem vir do outro lado do Atlântico e de seus antepassados. A proposta de produzir um material artístico sobre ancestralidade, por meio de tranças que por vezes enfeitam suas cabeças, as torna pontes entre o ofício de manter viva a simbologia de um penteado que está além da estética e a história que elas decidiram contar.